quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O polêmico “Dossiê Dragão Brasil”

Um fato recente na “bloguesfera” me motivou a sair da hibernação e atualizar esse humilde blog com minhas opiniões, lembranças e impressões sobre um longo momento da minha vida. Venho falar sobre meus inícios na vida rpgística e como uma única publicação mensal nas bancas impactou minha vida. Claro que falo sobre a Dragão Brasil, ou no original Dragon.

(Para entender do que vou falar, siga este link para o podcast original)
Antes de tudo, para dissipar o véu ilusório e deixar claros meus antecedentes, devo mostrar onde me encaixo nessa discussão toda que está rugindo pelo twitter e internet afora. Conheço o Thor pessoalmente, a princípio não pelo rpg, apesar de ambos jogarmos há muito nessa época, e ao longo desses anos posso hoje chamá-lo de amigo. Nâo tive o prazer de conversar ou até mesmo ver o trio , Cassaro, Trevisan e Saladino, pessoalmente; minhas experiências se resumem ao que lia e aprendia pelas matérias que escreviam. Apesar disso, sempre admirei os seus trabalhos e posso dizer que eles foram grandes responsáveis pela formação de um rpgista iniciante e imaturo num homem que tem gostos e argumentos para defendê-los. Meu crescimento como pessoa, dentro e fora do rpg, corria em paralelo ao que consumia nas páginas dessa revista.
Minhas palavras a seguir querem expressar apenas meus sentimentos como um simples leitor da Dragão nos idos dos anos 90 e começo do milênio, um dos muitos que não tinham face mas que pela força dos números eram o verdadeiro coração da publicação.
Eu lembro da primeira edição da Dragão que conquistou minha atenção e praticamente gritava na prateleira daqui da vizinhança para levá-la: tinha na capa um jedi, mas era uma adaptação para AD&D. Era uma idéia tão louca, eu sabia muito bem o que era um sabre de luz e os estranhos poderes da força, cresci vendo Star Wars na sessão da tarde pela Rede Globo, mas para AD&D? que mistura bizarra seria essa? Mesmo nessa época juvenil eu sabia o que era rpg graças aos lançamentos da Abril Jovem nas bancas de sua linha AD&D segunda edição, que me eram cobiçados mas eternamente distantes, eu um estudante da rede pública que NÃO recebia mesada. Mas a revista era mais barata e sempre conseguia ganhar uns trocados aqui e acolá para comprá-la. E assim me tornei seu ávido leitor pelos próximos anos.
A Dragão Brasil sempre terá um lugar guardado em meu coração, mesmo que durante os anos a nossa relação tenha se tornado cada vez mais tumultuosa e azeda até finalmente nos separarmos. Vou explicar o porquê.
Minhas matérias preferidas começavam pelas notícias do mundo rpgistico, seguidas pelas dicas de mestre, HQs e contos. Quanto as matérias em si, eu as achava interessantes mas raramente as usava, mesmo que algumas fossem realmente boas. Algumas aventuras talvez. Mesmo assim me admirava com a perspicácia e boas idéias contida nelas. Ora, podia não usá-las per se mas sempre acabava buscando inspiração e tirando pedaços para uso próprio. Me interessavam muito mais as edições especiais, principalmente as que continham rpgs completos, pois foi minha real chance de ter um jogo da qual podia usar por completo. Me apaixonei pelo Trevas assim que abri suas páginas de papel fino que pareciam um tomo esquecido em minhas mãos. O feeling da edição era de outro mundo.
Mas nem tudo eram flores. Algumas matérias me irritavam mais que inspiravam. Conforme fui adquirindo experiência, minha leitura da revista ficou prejudicada pelo que considerava textos simplórios e voltados para um outro tipo de leitor. Não me entendam mal, tenho consciência de que não dá para agradar a todos o tempo todo, mas conforme esse tipo de material começava a se tornar mais predominante, minha insatisfação com a linha editorial da revista aumentava. Buscava em vão uma leitura agradável dentro de suas páginas. Até que, finalmente, não tive outra escolha a não ser parar de acompanhá-la, uma decisão da qual nunca voltei atrás.
Eu ouvi no podcast as duras críticas e opiniões do Luiz Thor e outros, e posso dizer sem medo de errar que muitas delas são minhas também. Coisas que achava na época e que via que não era o único. Muitos amigos jogadores no meu círculo e fora dele compartilhavam das mesmas idéias, da mesma decepção (e o Luiz não se encontrava entre eles pois só fui conheçê-lo anos depois). Chegamos numa época até a flertar com a possibilidade de fazer a nossa própria revista, imaginem! Bolamos planos, trocamos idéias, enfim, propusemos fazer do nosso jeito tudo que achávamos “errado”  do que tínhamos a disposição nas bancas. Graças aos deuses esse projeto não vingou, pois reconheço a taréfa hérculea que é se dedicar a um trabalho desses. Neste ponto, só tenho a tecer elogios ao trio tormenta pela dedicação e esmero em manter a revista viva apesar dos pesares.
Contudo, sempre foi minha impressão que esses três grandes autores não eram muito receptivos a críticas. A seção de cartas da revista se tornou um martírio a qualquer leitor sensato e educado, as incontáveis respostas deselegantes e infelizes do editor me faziam questionar que tipo de pessoa faz um ataque daqueles as pessoas que, em prática, é que mantinham o seu sucesso. Algumas criticas eram bem fundamentadas, mas mesmo assim não via um cuidado ou humildade nas réplicas. Ao longo do tempo essa atitude se tornou intolerável, apesar desse tipo de carta começar a desaparecer da seção. Agora, eu realmente não tenho como saber se isso foi por que os criticos desistiram da revista ou suas opiniões devidamente selecionadas para o silêncio. Na verdade, não importava mais, pois isso acelerou minha desistência da Dragão. Daí começaram as vozes a acusar o Cassaro de megalomaníaco. O importante aqui é perceber que essa era minha impressão do editor, algo que não posso afirmar por de fato não conheçê-lo pessoalmente. No entanto é algo que ele terá que viver pelo resto da vida, por se tratar dessa pessoa pública e quase mítica do rpg nacional, e seus passos estarem bem documentados por aí.
No podcast, me vi fazendo muitos dos comentários que ouvi. Isso por que acredito que nem o Thor nem o Rpgista e o Dark Wolf os teceram por interesses em auto promoção e sucesso. Alías, não no sentido de se promover as custas dos outros, como li. Afinal, o trio também se aproveitou do sucesso gerado pelo seu trabalho, inclusive críticas ao trabalho alheio. Creio eles terem falado de algo querido de seu passado que também os decepcionou numa medida ou outra, como fãs e contemporâneos. Foram opiniões que você não fará numa conversa profissional, mas sim o que você diz a um amigo numa conversa informal de um assunto que interessa a ambos. Um podcast muitas vezes é exatamente isso. Com a vantagem, e ás vezes maldição, de alcançar uma proporção não esperada pelos seus idealizadores.
Fazer uma critica parece um trabalho extremamente ingrato, pois por mais imparcial que você tente ser ainda assim seu descontentamente é pessoal. O trabalho que você ataca representa algo importante para seu criador, e nunca ele será desprovido de subjetividade e contexto. É muito fácil levar uma crítica para o lado pessoal, por que ele É pessoal. Aprendi em algum lugar que somente observando algo é o suficiente para transformá-lo, e é isso que uma crítica imparcial faz.
Agora, o que torna uma critica em uma boa critica são os argumentos. E apesar dos comentários sobre a personalidade do Cassaro, do Trevisan e Saladino, o pod tem sim bons argumentos. A decisão editorial em tornar a revista num veículo para promover Tormenta e Animês em geral alienou uma boa fatia dos leitores a ela. Quanto aos méritos dessa decisão ficam os números que o trio declama constantemente, e pode sim ter sido responsável pela atração de novos jogadores. Não posso saber, nem ninguém, nem o trio, do impacto disso, pois mesmo nos Estados Unidos não existem estudos e análises mercadológicos eficientes sobre o rpg. Fica aí a questão da qual apesar do número de novos seguidores conquistados, quantos ela perdeu? Eu fui um deles.
Essa pergunta fundamental fica ainda mais complexa pelo fato de que o rpg, enquanto indústria, já vinha sofrendo duros golpes dos games, dos cards e finalmente da internet. Alías, todo o setor de publicação está sofrendo pesado nas garras desse mesmo veículo pelo qual espalho essas palavras. Mesmo assim, não é segredo que a Dragão vinha tendo quedas constantes de vendas mesmo sob a égide do Trio Tormenta. Dizer outra coisa é pura maquiagem. Mas acredito que eles não devem esconder isso, apesar de nunca ter lido nenhuma opinião nesse sentido. O trio não chegou nesse estágio sem ter o mínimo conhecimento sobre sua área e sobre sua paixão. Acredito aliás que são mestres no assunto. Mas mesmos experts podem cometar erros. No fim, apesar de todos os problemas, creio que o fim da revista foi ajudado e acelerado pelas decisões cometidas por eles no passado. Pode até ser um paradoxo, aqueles mesmos que o trio mais tentavam agradar, o nicho que curte animê e derivados, foram os mais rápidos a abandoná-los pelo meio digital, ao invés dos veteranos e da “velha guarda”, que são os que mais se prendem aos costumes e seus livros e revistas feitos de árvore morta. Mas os veteranos não acreditavam mais na Dragão Brasil. Posso dizer que naqueles anos tempestuosos da troca de editores, se tivesse tido um material de qualidade em mãos, poderia sim comprá-lo. Mas reconheço que estava cego para qualquer coisa com o logo “Dragão Brasil”.
Sou da opinião de que quando o trio pulou fora do barco, a revista se tornou um grande “elefante branco”, uma armadilha para o próximo da linha. Apesar do lançamento da “Dragon Slayer”, e do suposto sucesso dessa publicação, não consigo deixar de notar a referência inteligente e “rancorosa” no título. Quando me refiro ao suposto sucesso, quero atentar ao fato de ser uma publicação bimestral, com tiragem inferior ao que estamos acostumados dedicada a uma audiência menor e específica. Realmente uma sombra de sua antecessora. Um sucesso pode ser medido quando você fabrica dez e vende os dez? E um fracasso quando você traz mil e volta com quinhentos, ou até duzentos? Talvez para uma editora hoje sobreviver é preciso manter o low profile e se adaptar, e seja essa a natureza do sucesso da Slayer. Não ter grandes pretensões. Mas a Dragão Brasil significou mais para um número maior de pessoas.
Eu acabei vendo essa situação deflagrada pelo podcast degenerar em ataques escritos, algo que me entristece.  Principalmente por que deixa ainda mais a impressão que o trio não sabe lidar com críticas. Nem sempre estaremos agradando a todos, e toda essa campanha para desmerecer e descreditar a opinião alheia, sem finesse, só me faz novamente ficar alerta as palavras que me afastaram da Dragão e ao tipo de pessoas que estamos acostumados em nosso hobby. Estamos nos devorando enquanto nos enterram vivos.
Sei que escrevi bastante, e por isso vou parar por aqui. Espero que toda essa situação se resolva da maneira mais civilizada possível, algo que estou notando nas palavras do Saladino. Até

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